Primeiro, é importante ressaltar como alguns jornalistas tem sido radicalmente contra essa equiparação. Alguns excelente profissionais como Rodrigo Bueno e Paulo Vinícius Coelho. Outros parciais e nada profissionais também. Porém, sejam eles bons ou maus profissionais, até agora não vi um só argumento que desminta a equivalência daqueles títulos como sendo legítimos campeões do mais importante nacional de futebol do Brasil. Então, segue algumas das mais comuns críticas a equivalência e a contra-argumentação:
- O Campeonato Brasileiro começou em 1971 e se manteve tradicional até hoje. Por que equiparar os antigos torneios à ele?
O principal ponto é a questão de equivalência. Foram os principais campeonatos de nível nacional da época. Cada um com suas regras, apesar das já tradicionais bagunças na organização da CBD/CBF, coisa que inclusive permaneceu na era pós 71. Define-se o Campeão Nacional da cada país aquele time que vence o principal torneio nacional do país. É assim no Campeonato Inglês, por exemplo. Mesmo havendo 3 competições no país que incluem todos os clubes profissionais, apenas um é considerado "o" campeão inglês, ou seja, o campeão da Premier League. Os campeões da FA Cup e da Copa da Liga Inglesa são campeões secundários, mesmo sendo campeões nacionais (porém, não campeões ingleses). Alguns países, especialmente alguns latinos, mantem a tradição de dois torneios por ano, o Apertura e Clausura, mais famosos na Argentina. Porém, são torneios distintos e de equivalência igual. Não são disputados simultaneamente, nenhum é secundário. São praticamente dois turnos separados, com um campeão pra cada. O que não acontece no Brasil. Temos, atualmente, duas competições nacionais, uma principal - a que vale o título de Campeão Brasileiro, no caso, do Campeonato Brasileiro - e uma secundária, a Copa do Brasil. Assim como acontece na Itália (com a Copa da Itália), na Espanha (com a Copa do Rey), etc. É apenas uma questão de definir o campeão do maior torneio nacional para dizer que ele é o Campeão do País. É sempre o torneio mais difícil, independente da fórmula de disputa, quantidade de times, etc.
- Mas aqueles torneios tinham nomes diferentes. Como são Campeonato Brasileiro?
Nome por nome, o "atual" conhecido como Campeonato Brasileiro já teve vários nomes e são reconhecidos. Em 2000, tivemos a Copa João Havelange, aquele monstro de regras complicadas onde quase um time da segunda divisão foi campeão nacional. Algum jornalista contesta o fato do Vasco ser o Campeão Brasileiro de 2000? Em 1987, a escandalosa Copa União, até hoje mal decidida. Seja Sport ou Flamengo, ambos se consideram Campeões Brasileiros. Já tivemos o campeonato com outros nomes e nunca foram contestados pela imprensa. Por quê Taça Brasil e Robertão (apelido do Roberto Gomes Pedrosa) são?
- Mas e a quantidade de jogos e times? Como pode um Campeão Brasileiro jogar apenas 4 jogos como Santos e Palmeiras fizeram?
Primeiro, é preciso lembrar que NINGUÉM foi Campeão Brasileiro jogando apenas 4 jogos. Apesar do torneio em si ter sido disputado por alguns clubes já nas semi-finais (clubes de RJ e SP entravam na disputa já nas semis por serem os estaduais mais fortes), um clube para estar ali precisa ser campeão estadual. Ou seja, disputava-se um torneio inteiro, em pontos corridos, turno e returno, para depois estar no torneio nacional. Estranho ou não, eram as regras da época. E, vale dizer, TODOS os clubes brasileiros tinham a chance de disputa em condições de igualdade pra chegar lá. Bastava vencer o seu estadual. Claro que havia uma facilitação a clubes fluminenses e paulistas por já entrarem nas semi-finais, mas eram as regras da época. Esse peso era por serem considerados os torneios mais fortes. Porém, isso é visto em muitos outros torneios, como o atual Mundial de Clubes, onde o Inter tenta o bi. Campeões da Europa e da América do Sul, os dois mais importantes, já entram na fase semi-final. Logo, apesar da regra ser injusta sim, era a regra da época, e todos os clubes aceitavam. Logo, não tem porque dizer que 'não vale', se eram as determinações e jogada por todos.
Quantidade de clubes também não é parâmetro. O Campeonato Brasileiro desde 1971 também já teve variadas quantidades de clubes. Alguns com mais de 100 clubes em uma mesma edição. Outros, com poucos (já tivemos apenas 18 clubes na primeira divisão, hoje são 20). Então, se há essa variação desde 71 e são "legitimados", por quê os anteriores não são? Eram as regras da época.
- Então qualquer título de âmbito nacional pode ser um Campeonato Brasileiro?
Não. A não ser que ele assuma a equivalência de mais importante do país. Como já foram explicado, o denominado Campeão Brasileiro, é o clube que vence o principal torneio nacional do seu país. Independente de nome, formula de disputa ou quantidade de times. E tanto Taça Brasil quanto Roberto Gomes Pedrosa foram os mais importantes de suas épocas, por isso a luta pela equivalência. Se há outros torneios secundários, os vencedores desses não levam a honra de serem considerados 'Campeões Brasileiros', apenas campeões nacionais. Como o Santos, em 2010 campeão da Copa do Brasil. O Campeão Brasileiro de 2010 é o Fluminense. Caso contrário, poderíamos considerar a Copa dos Campeões de 2000, vencida pelo Palmeiras, como "Campeão Brasileiro". Mas não era, havia outro torneio mais importante. O vencedor desse sim, merecedor do título.
- Mas e os anos em que houve dois torneios no mesmo ano, como o Palmeiras que foi bi no mesmo ano? Como fica então?
Pura e simplesmente desorganização da CBD/CBF. É claro que é estranho ser bi campeão nacional no mesmo ano. Em alguns países (como Argentina) é até possível, mas aqui soa estranho. Porém, eram as regras da época, esquisitas ou não. Se eram pra ser questionadas, que fossem antes de se iniciar o torneio. Iniciado, aceito e jogado por todos em condições de igualdade, deve ser respeitada. A desorganização de quem deveria organizar não deve ser empecilho para tirar a honra de quem ganhou dentro de campo. E tanto Taça Brasil quanto Robertão foram os embriões do atual Brasileirão. Se a CBF organizou mal, é outra história e outra discussão. Dentro de campo houve campeões legítimos. Em 2001, por exemplo, tivemos a final adiada da Copa João Havelange em janeiro, vencida pelo Vasco e a final do Campeonato Brasileiro, vencida pelo Atlético Paranaense em dezembro. Ou seja, desorganização já gerou campeões nacionais no mesmo ano, mesmo que o Vasco seja considerado de 2000. Se o Vasco vencesse o outro campeonato em 2001, seria bi no mesmo ano, assim como foi o Palmeiras. E já houve vários casos de torneios estaduais começados em um ano e terminado em outro. Não é porque o futebol brasileiro era mal administrado que se tira os méritos de seus vencedores. Vale lembrar que muitos dos jornalistas que hoje são contra essa equivalência e que, inclusive, usam de ironia pra dizer que houve dois campeões no ano, consideram o Corinthians campeão mundial em 2000, mesmo o Boca Juniors vencendo o torneio em Tóquio. Ou seja, consideram dois campeões mundiais no mesmo ano.
- Mas e a importância dada pelos clubes? Alguns dizem que eles valorizavam mais o estadual que a Taça Brasil, por exemplo.
Aí é questão de época. A Libertadores, quando se iniciou, não tinha a importância que tem hoje. Tanto que houve casos de clubes que preferiam disputar torneios amistosos vantajosos na Europa e disputar a competição. Mas isso também não tira os méritos dos vencedores. Dado mais ou menos importância por quem ganhou, o título foi conquistado.
- O Robertão tinha formulas mais parecidas com o atual, enquanto a Taça Brasil se parecia mais com a Copa do Brasil. Por quê não equivaler dessa forma?
Simplesmente porque a Taça Brasil foi o torneio mais importante do momento, aquele que definia o Campeão Brasileiro. Formula por formula, como já foi dito, o Brasileiro de 71 pra cá teve várias diferentes. O fato de alguns dizerem que Copa é Copa e Campeonato é Campeonato é falso. Não existe parâmetro. A COPA do Mundo já foi disputada com quadrangulares pra definir o campeão (como em 1950). Um quadrangular nada mais é do que um 'mini-pontos corridos'. Condição contrária a chamada Copa. E nem por isso deixa de se considerar o Uruguai campeão de 1950. Formulas de disputam mudam, já mudaram ano à ano, mas a equivalência, a importância dos torneios era a mesma.
- Essa decisão de dar equivalência, não é política?
Sim. E qual não é? A decisão do Campeão de 1987 também é, apesar de mal definida. Novamente, isso não tira a importância de quem venceu. Essas coisas, mesmo que obscuras, não devem ser misturadas.
- Outros torneios, como os de nível continental, devem ser equiparados também?
Talvez. É preciso analisar caso à caso. Querem equivaler, por exemplo, Copa Conmebol, Copa Mercosul e Copa Sulamericana. Mas pra isso se necessita de outras argumentações, pois a Mercosul, por exemplo, era composta por times convidados, sem méritos reais para estarem ali.
- Santistas então, falando em equivalência, consideram o Palmeiras campeão mundial de 1951, já que brigam juntos pela equivalência dos Brasileiros?
Eu santista que sou, pelo menos, não considero, por um simples fato. Apesar da importância dos clubes, a Copa Rio era um torneio de convidados. Mérito por vencer ninguém tira do Palmeiras, mas o fato de não dar a chance de disputa em igualdade para todos os clubes estarem ali não dá esse direito de se considerar campeão do Mundo. Coisa que tanto Taça Brasil, quanto Robertão, davam. Bastava um clube ser campeão estadual que disputaria o torneio nacional. No caso da Copa Rio, dizia-se que eram os principais campeões de cada país participante. O Brasil teve dois, Palmeiras e Vasco. Mas e o campeão inglês, por exemplo? Como ele faria pra participar da competição se não houve um qualificatório pra isso e não existia um continental? Clubes ingleses então jamais poderiam ser campeões mundiais? Isso não acontece na Taça Brasil, nem no Robertão, onde TODOS(!) os clubes tinham essa condição. Torneios semelhantes a Taça Rio foram muito disputados na década de 60, onde o próprio Santos venceu vários. E nem por isso a equivalência é dada.
- Que outros argumentos são usados pra dar essa equivalência aos torneios?
Pode-se usar a imprensa como principal fator de reconhecimento ou não. É verdade que a imprensa brasileira esportiva é podre em sua maioria, mas existem boas exceções. Não há jornalista que desconsidere o Corinthians (clube bem popular na imprensa, por exemplo) como o maior campeão paulista de todos. Mas e todos os torneios que o Corinthians ganhou (com méritos) no começo do Século XX e que tinham outros nomes, outros torneios paralelos e outras regras aos atuais estaduais? Por que são aceitos pela imprensa e a Taça Brasil e o Robertão não. Qual o parâmetro para considerar isso? E jornalistas que aceitam Flamengo e Sport, dois campeões nacionais no mesmo ano (ainda sobre muita discussão) e não aceitam Robertão e Taça Brasil? Na verdade, graças a desorganização da CBF (seja com o nome de CBD, seja a atual), sempre deu margem a várias interpretações. Mas, tirar o mérito de clubes por culpa disso, é injusto. Jornalistas, como formadores de opinião em um país onde a população, sabidamente, não é das mais inteligentes e nem faz questão disso, usam de vontade própria pra considerar aquilo que lhes convém. Sabe-se que existem os 'favoritos' da imprensa, normalmente, os clubes mais populares, que geram audiências maiores e que, consequentemente, geram mais anuncios para seus jornais, revistas, programas e, consequentemente, mais dinheiro para esses mesmos jornalistas. Ou seja, falar algo a favor de certos clubes geram dividendos para alguns jornalistas. Óbvio que não são todos, há sim exceções e bons profissionais, mas é sabido que a MAIORIA é assim. A própria imprensa (especialmente a TV) vive em pé-de-guerra e troca da acusações de lado a lado, além de brigas judiciais. Logo, deve-se sempre filtrar opiniões que argumentos, de pessoas sérias e que trabalham no intuito de informar, não de gerar interesses próprios. E, pra isso, conta-se nos dedos os jornalistas que valem a pena ouvir argumentações. Discussões de torcedores são sempre passionais e, não raras, extremistas. Mas a equivalência dos títulos de campeões daqueles times vencedores da Taça Brasil e do Roberto Gomes Pedrosa, por serem os campeonatos mais fortes da época e, logo, seus vencedores serem os legítimos Campeões Brasileiros dos respectivos anos, é uma justiça que se faz tarde. Mas que seja feita.